“Ameaça” de Arroyo ajudou Polícia Federal em investigação de conselheiros

Edifício D’Orsay, onde Jaronymo teria comprado apartamento e colocado o sobrinho como laranja – Bruno Henrique
Pista dada por ex-deputado – preterido por Puccinelli em disputa por indicação ao Tribunal de Contas

Eduardo Miranda

Mais de seis anos depois da indicação e confirmação de Osmar Jeronymo como conselheiro do Tribunal de Contas de Mato Grosso do Sul (TCE-MS), a manobra do ex-governador André Puccinelli (MDB) que o alçou à corte de contas e deixou o principal pretendente à vaga, o ex-deputado estadual Antônio Carlos Arroyo, ganha novas nuances.

É que as ameças que Arroyo fez a vários interlocutores, como o empreiteiro João Amorim, e interceptadas pela Polícia Federal, foram usadas pelos investigadores para cruzar as informações de lavagem de dinheiro na Operação Mineração de Ouro, que tem como alvo além de Jeronymo, outros dois conselheiros do TCE-MS: Ronaldo Chadid e Waldir Neves.

Entre os crimes que os conselheiros podem ter praticado, além da lavagem de dinheiro, está o peculato (desvio de dinheiro público), organização criminosa, entre outros.

Os federais concluíram, em representação enviada ao Ministro do Superior Tribunal de Justiça (STJ), Francisco Falcão, que uma das ameaças de Arroyo, que prometia denunciar várias irregularidades de Jeronymo, com quem disputava a indicação de Puccinelli, fazia sentido.

“Só dei uma cutucada no seu Osmar [Jeronymo], está certo? Eu tenho, mostrei pro amigo dele que um amigo dele chamado Nabor Barbosa Filho […]. Olha, avisa o teu irmão lá que ele não toma posse, e mais, eu não queria te envolver, você vai estar envolvido”, disse Arroyo em um dos telefonemas interceptados pela Operação Lama Asfáltica.

Seis anos e meio depois, na Operação Mineração de Ouro, o nome de Nabor Barbosa Filho aparece em uma transação de mútuo com Osmar Jaronymo. Nabor, que segundo a Polícia Federal opera a concessão do pedágio da ponte do Rio Paraguai, emprestou R$ 3 milhões do ex-chefe da Casa Civil de André Puccinelli e atual conselheiro do TCE-MS.

Como garantia do empréstimo, Nabor deu um apartamento no edifício D’Orsay, prédio de luxo localizado em frente ao Parque das Nações Indígenas, em Campo Grande.

Ocorre que a Polícia Federal suspeita que a operação financeira não tenha passado de uma simulação. Os contratos entre Nabor e Jeronymo foram apreendidos na casa do advogado Félix Jayme Nunes da Cunha, e lá foram encontrados indícios que iam além da operação.

Para a PF, Osmar emprestou R$ 3 milhões para Nabor, que pagou tal empréstimo com a “entrega” de um apartamento de luxo. “Contudo, tal imóvel foi passado para o nome de Felix Jayme, e não de Osmar Jeronymo”, afirma a Polícia Federal na representação.

Laranja

No negócio envolvendo o mesmo apartamento, Felix Jayme disse ter comprado direitos de pesquisa de minério de Diego Jeronymo, sobrinho de Osmar.

Ocorre que Félix Jayme deixou vencer o alvará concedido pelo Departamento Nacional de Produção Mineral (DNPM), que dá direito a fazer pesquisa de minerais, pelo qual pagou com R$ 7 milhões de Diego.

O desfecho da operação é a transferência do apartamento, de Felix Jayme para Diego Jeronymo, como parte do pagamento dos R$ 7,7 milhões.

Para a Polícia Federal, Diego não passa de um laranja de Osmar Jeronymo.

Arroyo

Na mesma conversa interceptada, em que Arroyo ameaçava denunciar a operação entre Nabor Barbosa Filho e Osmar Jeronymo, Arroyo desfecha a ameaça da seguinte forma: “Falei, olha, isso só é a ponta do iceberg, ceis (sic!) estão achando que a gente está brincando, ceis (sic!) estão achando que eu não vou no limite, eu já passei do limite, entendeu?”.

Em dezembro de 2014, a indicação de Antônio Carlos Arroyo para o Tribunal de Contas de Mato Grosso do Sul chegou a ser aprovada pela Assembleia Legislativa, mas o Tribunal de Contas de Mato Grosso do Sul impediu a abertura da vaga, anulando a aposentadoria (que mais tarde se confirmaria) do conselheiro José Ricardo Cabral.

Naquele dezembro de 2014, Puccinelli indicou três nomes ao Tribunal de Contas: Osmar Jeronymo, Antônio Carlos Arroyo e o então presidente da Assembleia Legislativa, Jeson Domingos. Desses três, só Arroyo não conseguiu entrar para a corte.

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