Simulação ou atentado? Um ano depois, PF e Trutis mantêm versões opostas

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Investigação contra Loester Trutis continua no Supremo Tribunal Federal e entrará na reta final neste semestre

Eduardo Miranda

Já se passou um ano desde que o deputado federal Loester Trutis (PSL) foi às redes sociais para denunciar que tinha escapado de um atentado a tiros na BR-060, entre Campo Grande e Sidrolândia.

Desde a manhã do dia 16 de fevereiro de 2020, domingo, a versão do parlamentar descolou-se da apurada pela Polícia Federal, que hoje suspeita que ele teria simulado o atentado.

O incidente ainda gera desdobramentos e chegou ao seu auge no dia 12 de novembro de 2020, quando a Polícia Federal desencadeou uma operação para o cumprimento de vários mandados de busca e apreensão nos endereços ligados a Trutis, ao irmão dele, Alberto Carlos Gomes de Souza, ao seu assessor, Ciro Fidelis, e ao ex-primeiro-secretário do PSL de Campo Grande, Jovani Batista da Silva. Os dois últimos também integram o Movimento Conservador de Mato Grosso do Sul.

Quase prisão

Foi nesta operação policial que Trutis quase foi preso. Só não foi porque as mudanças na legislação advindas do pacote anticrime do ex-ministro Sergio Moro, enviado ao Congresso em 2019 e ao qual o deputado federal campo-grandense votou a favor, não permitiram.

Com a nova lei, prisões em flagrante de posse irregular de arma de fogo para alguns casos, como o de Trutis, que registra suas armas como colecionador, não são mais permitidas.

A operação ocorreu dias antes da eleição para prefeito, à qual Trutis chegou a se candidatar em Campo Grande, mas sofreu um revés dentro do próprio partido, que acabou indo às urnas com o ex-vereador Vinicius Siqueira.

Naquele dia, o deputado passou todo o tempo na Superintendência Regional da Polícia Federal em Campo Grande. A Agência Estadual de Administração do Sistema Penitenciário (Agepen) chegou a reservar uma cela para ela.

A prisão em flagrante, porém, não foi concretizada e não foi permitida pela ministra do Supremo Tribunal Federal Rosa Weber, que autorizou as buscas e apreensões e permitiu que a operação ocorresse.

O quase flagrante ocorreu por causa da apreensão de um fuzil Taurus T4 (arma de uso restrito), além de uma pistola 9 mm, um carregador com 14 munições e um revólver .357 com 10 munições.

Com Alberto Carlos, irmão de Trutis, a Polícia Federal ainda apreendeu um certificado de registro de arma não especificada emitido pelo Exército.

No desdobramento mais recente do inquérito, Trutis e os outros três investigados pediram a devolução das armas.

A Procuradoria-Geral da República, por meio do vice-procurador-geral, Humberto Jacques de Medeiros, negou o pedido e afirmou que as armas são imprescindíveis para a investigação.

Indícios

A operação foi desencadeada quase nove meses após o incidente. Para evitar que todo o inquérito subisse para o STF e o departamento de Polícia Federal em Brasília, os alvos da investigação em Campo Grande foram Ciro Nogueira Fidelis, assessor parlamentar de Trutis que dirigia o Toyota Corolla alugado por seu gabinete na Câmara dos Deputados, Jovani Batista da Silva e Alberto Carlos Gomes de Souza.

Na investigação, além dos trabalhos de perícia e balística, os policiais também solicitaram imagens de câmeras de várias empresas localizadas no trajeto, e as conclusões não coincidiram com as alegações do deputado.

Em seu depoimento, o deputado disse ter sido abordado na rodovia por uma caminhonete Mitsubishi L200 e que só conseguiu escapar do atentado porque Fidelis, que dirigia o Corolla, executou uma manobra brusca: freou abruptamente, deixou que a picape seguisse o caminho e depois revidou a tiros.

No mesmo depoimento, Trutis também contou que os integrantes da caminhonete portavam uma carabina .40 (CTT .40).

Não foi o que a perícia da Polícia Federal concluiu. As câmeras do posto da Secretaria de Fazenda (Sefaz) identificaram apenas três veículos no momento do atentado: um Renault Kangoo, um Ford Ka e uma picape Fiat Strada.

A perícia ainda concluiu que os tiros no Corolla foram disparados por uma pessoa que estava em pé, e não em movimento, e que não eram projéteis de uma CTT .40, e sim de uma pistola Glock 9 mm.

Coincidência ou não, o deputado federal Loester Trutis exibe uma pistola deste modelo em suas redes sociais. E este foi o principal cruzamento de informação que levou o inquérito a subir para o STF (Trutis tem foro privilegiado) em 3 de novembro do ano passado.

Outros elementos, como rastreamento do carro via GPS, também alicerçam os crimes que a Polícia Federal suspeita que tenham sido cometidos: falsa comunicação de crime, disparo de arma de fogo, dano e posse ilegal de arma de fogo.

Foi para investigar se a Glock de Trutis é a mesma que alvejou o Corolla que a operação de novembro foi desencadeada.

Deputado diz ter havido má-fé na investigação da Polícia Federal

Ao Correio do Estado, o deputado federal Loester Trutis disse considerar que a investigação conduzida pela Polícia Federal em Campo Grande foi parcial e que houve “má-fé” por parte dos que a conduziram.

O deputado questiona as alegações ponto a ponto. Sobre o rastreamento do GPS, ele lembra que o Corolla foi devolvido à locadora e o dispositivo já foi formatado, o que impede que ele solicite uma segunda perícia no aparelho.

“Por que não foi avisado que seria feita uma perícia no GPS do carro para a gente também ter acesso ou, se necessário, para que se fizesse uma perícia judicial?”, questionou.

Trutis questiona alguns dados do laudo, como, por exemplo, o de que ele estava a 240 metros do local do incidente.

“Só que se você for ler o mesmo laudo, ele fala que esse tempo não passou de 40 segundos. Não sei se você já pegou um Uber ou mandou a localização para alguém e chega uma localização diferente, que dá até um constrangimento. Isso não é exatamente normal”, defendeu-se.

O deputado também questiona a investigação, que encontrou duas picapes L200, velhas (com fotos anexadas ao inquérito) e que não teriam condições mecânicas de perseguir o Corolla conforme descrito.

“É má-fé, colocaram até o carro velho no inquérito. Pô, você acha mesmo que assassino contratado, traficante, usa carro próprio para fazer isso [o atentado]? Eles nunca ouviram falar em placa clonada? Em placa adulterada? Eles acham mesmo que alguém pegou um carro no nome de alguém e atirou em um deputado federal? Não, ele não acha isso. É má-fé!”.

Trutis também questiona o ponto que motivou a operação contra ele em novembro último: a pistola Glock 9 mm. Ele afirma que se trata de uma pistola para a prática de air soft (jogo que simula operações policiais com munições de pressão não letais).

“Se você perguntar para qualquer especialista de segurança pública, para qualquer policial civil, do CAT, do Bope, do Choque ou policial militar, ele vai te confirmar que aquela arma, pelo formato de saída de munição do cano dela, é de air soft”, alegou.

Quanto aos dois habeas corpus ajuizados em dezembro, aos quais não foi dado seguimento pelos ministros plantonistas do Supremo Tribunal Federal, Trutis questiona a cobertura da imprensa.

“Eu não estou querendo travar a investigação [como divulgado]. Eu só quero que ela não seja concluída enquanto nossos argumentos não forem levados em conta”, afirma.

Ele cita a devolução do GPS, por meios administrativos, que ele considera uma “destruição de prova”. “São esses absurdos que eu quero que sejam levados em conta antes da conclusão do inquérito”, disse o deputado.

Conselho de ética

Por fim, Loester Trutis disse não acreditar que o caso chegue ao Conselho de Ética da Câmara e venha a prejudicar o seu mandato de deputado federal.

“Tenho o apoio de todos os meus colegas, inclusive os que são delegados, membros do meu convívio, alguns que já integraram a lista tríplice da PF [Polícia Federal]. Eles acham um absurdo o que foi alegado”, afirma.

“Então eu acho muito difícil haver o indiciamento com a conclusão desse inquérito, seja ela qual for. Eu estou muito tranquilo, quem não deve não teme”, concluiu. (EM)

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