Centenário de Tico Ribeiro: o veterinário que se tornou 1º deputado federal por Aquidauana

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Um clássico na voz de Carmem Miranda, o chorinho composto em 1917 e regravado na década de 30 inspirou o apelido que identifica Fernando Luiz Alves Ribeiro. Se estivesse vivo, Tico Ribeiro teria completado 100 anos no dia 22 de março. E seria uma festa com muitos motivos para comemorar: ele foi o primeiro político a levar Aquidauana para a elite política do país na época: o Parlamento Nacional, ainda sediado no Rio de Janeiro.

Na sessão desta terça-feira (2), seu neto, o deputado estadual Felipe Orro, fez um pronunciamento ressaltando o centenário de seu nascimento. Felipe disse que o avô foi um homem “a frente de seu tempo”e citou importantes intervenções feitas por ele em Aquidauana, como a pavimentação das ruas da área central.

Nascimento

Neto do lendário Coronel Jejé (José Alves Ribeiro), filho de José Alves Ribeiro (Zelito, intendente geral de Aquidauana entre 1.925/27), Tico Ribeiro integra uma família com vários nomes importantes na política, entre os quais seu avô materno Pedro Celestino (governador), seu tio Fernando Corrêa da Costa (governador).

Filho de José Alves Ribeiro e Maria Constança Corrêa Ribeiro, Tico Ribeiro nasceu em 22 de março de 1919 e ganhou o apelido de sua avó paterna, Etelvina. “Isso porque ele saía para caçar passarinho cedo, com os bolsos cheios de farinha. A avó ouviu a música Tico Tico no Fubá e passou a chamá-lo de Tico. Essa é a história que ouvi desde pequena”, lembra Yonne Ribeiro Orro, sua filha.

Tico Ribeiro formou-se em Medicina Veterinária pela Escola de Agronomia e Veterinária de Viçosa (MS), hoje universidade; casou-se em 1945 com Nilza Corrêa Ferraz e foram morar no Iguaçu, parte da fazenda Taboco, herança de família. Mas foi por pouco tempo. O trabalho na Carteira Agropecuária do Banco do Brasil levou-o a residir em Campo Grande e em Cuiabá -época em que trabalhou como diretor da Comissão de Planejamento da Produção no Estado. Em 1951 regressou a sua terra natal, já desligado do banco, pronto para iniciar sua carreira política.

Prefeito

Ganhou notoriedade no programa de rádio João Bobo, da Difusora de Aquidauana,em que tecia críticas ao cotidiano político da cidade. A fama levou-o ase eleger prefeito do município em 1952. Como Chefe do Executivo, implantou na cidade uma empresa de telefonia com aparelhos automáticos, numa época em que as ligações eram feitas via telefonista. Além disso, estruturou o Aeroclube de Aquidauana, que facilitou a logística e o acesso a regiões isoladas no Pantanal.

Como prefeito, Tico Ribeiro fez uma gestão inovadora e com muito serviço prestado à cidade. Durante seu mandato foi ampliado o serviço de abastecimento de água e implantada a rede de esgoto, o que possibilitou o calçamento da cidade. As lajotas que até hoje se fazem presentes na região central de Aquidauana também são marca registrada de Tico Ribeiro.

A opção pelos paralelepípedos veio da avaliação de custo e benefício, pois, optando pelo asfalto, a Prefeitura não poderia ampliar o calçamento sem chamar uma empresa de fora para executar o serviço, enquanto que com a lajota, a própria Prefeitura teria independência e facilidades para realizar as intervenções nas ruas da cidade.

Também foi em sua gestão que teve fim um polêmico laudêmio, um benefício que gozavam descendentes dos chamados pioneiros que, pelo simples parentesco com os primeiros habitantes da cidade, não pagavam IPTU. Tico Ribeiro enfrentou e ganhou a briga, estendendo o imposto a todos.

Deputado federal

O reconhecimento à frente da Prefeitura de Aquidauana credenciou Tico Ribeiro a concorrer a uma vaga na Câmara dos Deputados, sendo eleito em 1958 pela UDN, a União Democrática Nacional.Em sua biografia da Fundação Getúlio Vargas consta que: “embora adversário do presidente Juscelino Kubitschek, apoiou a transferência da capital federal para Brasília, vinculando-se ao chamado bloco mudancista. A transferência foi consumada em abril de 1960″.

Após a renúncia do presidente Jânio Quadros, em 1961, Tico Ribeiro apoiou a edição da Emenda Constitucional nº 4, em setembro daquele ano, que implantou no país o sistema parlamentarista de governo como forma de contornar o veto imposto por setores militares à posse do vice-presidente João Goulart.

Em 1972 morre sua esposa Nilza. Dois anos após casou-se pela segunda vez com a prima de Nilza, Maria Tereza Ferraz, com quem teve dois filhos: Zelito e Odilon Ribeiro, atual prefeito de Aquidauana.

Após deixar a Câmara dos Deputados, Tico Ribeiro foi prefeito de Aquidauana por mais dois mandatos. Faleceu em 14 de setembro de 1995, aos 76 anos.

Na semana de seu falecimento, o então senador Levy Dias discursou no Senado Federal em sua homenagem, sendo aparteado pelo também senador Lúdio Coelho. Levy disse: “Tico Ribeiro tornou-se um exemplo a ser seguido não só na cidade de Aquidauana, mas em todo o Estado do Mato Grosso do Sul. Um paradigma de homem público pela sua personalidade forte, pela sua ética, pela sua força moral. Ele deixa um vazio muito grande na política do nosso Estado, exatamente pela presença marcante que teve na política estadual”.

Monteiro Lobato

YonneOrro tem uma recordação muito peculiar do pai. “Tenho duas lembranças fortes do meu pai. Ele me ensinou a prezar a independência de pensamentos e atitudes; ele proporcionava leituras para a idade: Monteiro Lobato, Malba Tahan, Mark Twain, mas eu lia de tudo o que havia em casa. Era livre o acesso, maneira de agir incomum à época. Mais tarde tivemos muitas divergências devidas a essa independência.”

O deputado estadual Felipe Orro ressalta o legado deixado por seu avô. “Era um homem à frente do seu tempo, que tinha uma visão administrativa muito boa, com excelente capacidade de gestão. Era uma figura carismática e quem o conhecia tinha por ele um grande amor e carinho. Meu avô tinha posição firme para todos os assuntos. Sabia se posicionar. Muita gente compareceu em peso ao seu velório, em reconhecimento a todo o trabalho que ele prestou à população, à Aquidauana e ao Brasil”.

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