Casamento de Ariane foi entre as crianças, dentro do abrigo que a noiva viu nascer

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PAULA MACIULEVICIUS BRASIL

De surpresa, dos padrinhos e amigos, Ariane ganhou a festa de casamento no lugar que ajudou a formar e onde viu como o amor transforma. Os convidados eram as crianças que acompanhou durante os 10 anos como voluntária no abrigo Sociedade Missionária Ebenezer, em Aquiaudana. Nas fotos, eles aparecem em peso tentando brigar pelo buquê, 10 anos atrás.

“A gente não ia fazer festa, só o casamento civil e um almoço para os padrinhos, mas eu ganhei muitas coisas das pessoas, inclusive o vestido feito pela costureira da cidade que quis me dar de presente”, recorda a educadora parental Ariane Oshiro, hoje com 34 anos. Na “leva” dos presentes, entrou a comemoração no pátio que era segunda casa de Ariane. “Eu era voluntária desde a fundação, ajudei a ir lavar o espaço”, conta.

Ainda criança, aos 9 anos, Ariane se lembra de se incomodar ao ver que ela tinha casa enquanto tantos outros viviam nas ruas. “Eu me inquietava de ver tantas crianças na rua, não entendia porque eu tinha condições de não estar ali e elas viviam pedindo”, contextualiza. Perto dos 13 anos, conhecidos da família encabeçaram o projeto para abertura do abrigo e contaram com a adesão da então adolescente. “Fazia muito sentido para mim me envolver num projeto assim”.

Foram 10 anos como voluntária, até o trabalho de conclusão do curso de Administração de Empresas de Ariane foi em torno do abrigo e das crianças ali amadas.

“Aí as pessoas resolveram me dar de presente e eu fiquei sabendo só na semana do casamento”, fala, sobre a festa. A surpresa foi boa, ainda mais porque contou com a ajuda das crianças nos preparativos. Ao mesmo tempo em que os noivos comemoravam o “sim”, aquela era a despedida. Depois de se casar, Ariane se mudaria. E assim foi: mudou-se para Campo Grande.

“Houve muito choro, muita emoção. Elas queriam pegar meu vestido, ficar com o buquê”. As fotos trazem boas lembranças à educadora. “Eu tinha uma presença muito grande na história dessas meninas, na vida delas e me lembro com muito carinho. Eu era chamada de tia Ariane”, fala.

As crianças cresceram, Ariane também, e com algumas delas mantém contato até hoje. “Elas me pedem fotos da época, fazem relatos de como foi quando eu trabalhei ali. Elas saíram da casa, se profissionalizaram”, resume.  Hoje, uma década depois, Ariane sabe que a relação dela com os pequenos era mais que isso.

“Algumas questões minhas precisavam ser curadas e foi um caminho que encontrei”, reflete. Ao olhar as fotos agora, ela vê uma sintonia entre passado e presente. “Eu acredito na infância, na educação e no cuidado com o próximo, eu acredito que a comunicação pode ser a chave para mudança nas relações”.

Ariane e as crianças do abrigo onde ela foi voluntária ao longo de 10 anos, em Aquidauana. (Foto: Arquivo Pessoal)

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